Rasgos no Silêncio:
Reflexões em torno de uma experiência de
ensino-aprendizagem de Língua Gestual Portuguesa


Por MÁRCIA GOUVEIA, ROSALINA COSTA e SANDRA GOMES

«Do you think...
that we could find a place...
where we can meet...
not in silence...
and not in sound?»
“Children of a Lesser God”, de Randa Haines, Drama, EUA, 1986, 119’.


Resumo

Os cursos de Língua Gestual Portuguesa (LGP) destinam-se não apenas a surdos mas também a ouvintes, nomeadamente, professores, educadores e outros técnicos que trabalham com a problemática, familiares e amigos de pessoas surdas ou quaisquer outras pessoas interessadas na aprendizagem de LGP. A partir de uma experiência de formação concreta – o curso de LGP/nível I (ASE, 2006/07) – constitui objectivo deste texto* reflectir sobre um processo de ensino-aprendizagem que faz do seu espaço o momento de silenciar a voz, tirar as mãos dos bolsos e deixar “falar” as mãos. Depois de uma breve introdução à LGP e de uma incursão exploratória sobre o ensino de LGP a ouvintes sintetizamos num “retrato impressionista” o nosso testemunho pessoal sobre esta experiência particular de ensino-aprendizagem. É precisamente com base nestas reflexões, construídas a partir de várias notas soltas organizadas tematicamente quanto aos protagonistas, contexto, conteúdos, recursos e avaliação que rotulamos como “diferente” esta experiência de ensino-aprendizagem.

* - Comunicação apresentada com o título «Ensinar e Aprender LGP – Reflexões em torno de uma experiência de ensino-aprendizagem “diferente”» no V Encontro Regional de Educação “Aprender no Alentejo” organizado pelo CIEP – Centro de Investigação em Educação e Psicologia da Universidade de Évora e realizado na Universidade de Évora (Évora, Portugal) nos dias 5 e 6 de Junho de 2008.

Palavras-Chave: Língua Gestual Portuguesa; Surdos; Comunidade Surda; Ensino-aprendizagem; Silêncio.

1. Considerações preliminares

O ensino e a aprendizagem da Língua Gestual Portuguesa (LGP) são hoje temas particularmente actuais na sociedade portuguesa. Mais de dez anos volvidos sobre o reconhecimento da LGP na Constituição da República Portuguesa* , foi homologado em Janeiro de 2008, pelo Ministério da Educação, o Programa Curricular da Língua Gestual Portuguesa – Primeiras Idades e Ensino Básico apresentado pela Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (Cavaca, 2008) de aplicação obrigatória no currículo dos alunos que optem pelo ensino bilingue em escolas de referência. Data também do início desse mesmo ano a publicação do Decreto-Lei n.º 3/2008, de 7 de Janeiro, que define os apoios especializados a prestar na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário dos sectores público, particular e cooperativo, visando a criação de condições para a adequação do processo educativo às necessidades educativas especiais dos alunos com limitações significativas ao nível da actividade e da participação em um ou vários domínios da vida. Mas o ensino e a aprendizagem de LGP não estão limitados nem às pessoas surdas, nem ao espaço “formal” da escola e do ensino público. Na verdade, entre os destinatários dos cursos de LGP estão incluídos, para além de surdos, também ouvintes, nomeadamente, professores, educadores e outros técnicos que trabalham com a problemática, familiares e amigos de pessoas surdas e quaisquer outras pessoas interessadas na aprendizagem da LGP, o que alarga substancialmente o leque de potenciais destinatários na frequência de tais cursos. Por outro lado, o ensino de LGP a ouvintes inclui a oferta de cursos promovidos pela Associação Portuguesa de Surdos (APS) mas estende-se a outros espaços de formação, designadamente, as diversas associações locais ou regionais de surdos, universidades, institutos politécnicos, escolas superiores de educação, e ainda inúmeras instituições privadas por todo o país.

* - De acordo com o art.º 74.º (Ensino), n.º 2 da CRP: «Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: […] h) proteger e valorizar a língua gestual portuguesa, enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades».

A experiência de ensino-aprendizagem que aqui rotulamos como “diferente” resulta precisamente da participação num curso de Língua Gestual Portuguesa para ouvintes, curso esse promovido pela Associação de Surdos de Évora (ASE)* entre Setembro de 2006 e Julho de 2007** . De referir que este curso foi frequentado por cerca de 12 formandos*** , de formação e ocupação profissional muito diversificada**** e, na generalidade dos casos, pouco ou nenhum envolvimento continuado com surdos***** . Este facto, por si só, deixava adivinhar, desde logo, uma experiência de ensino-aprendizagem necessariamente “diferente”: não apenas para a formadora (surda), mais habituada no seu dia-a-dia profissional e relacional a lidar com surdos; mas também para os formandos (ouvintes), envolvidos num quotidiano profissional e relacional de e entre ouvintes.

* - Aproveitamos para agradecer à Associação de Surdos de Évora, na pessoa da sua Vice-Presidente, a Senhora D.ª Zulima Gaspar, o apoio e o interesse com que acompanhou a apresentação desta comunicação no V Encontro Regional de Educação.
** - O curso, num total de 120 horas, decorreu semanalmente (às quintas-feiras) nas instalações da ASE, em sessões de 3 horas e em horário pós-laboral (18:00-21:00h). Os objectivos e conteúdos do curso foram os gerais e adequados ao nível I (vd. a secção 3) e a metodologia utilizada combinou o recurso aos métodos expositivo (visual/gestual e dramatização), interrogativo (jogo de perguntas em LGP e conversação), demonstrativo (configuração da mão), e activo (conversação contextualizada, visionamento de vídeos, jogos pedagógicos, etc.). No final, os formandos foram avaliados por dois examinadores da Associação Portuguesa de Surdos
*** - Do grupo de formandos fizeram parte as duas primeiras autoras deste texto. A terceira autora assegurou a função de formadora.
**** - Desde professores, psicólogos, assistentes sociais, uma terapeuta da fala, uma estudante do ensino secundário, uma funcionária administrativa e um contador de histórias.
***** - Excepção para a terapeuta da fala e o assistente social cujo trabalho quotidiano envolvia surdos.


Reflectir sobre um processo de ensino-aprendizagem que faz do seu espaço o momento de silenciar a voz, tirar as mãos dos bolsos e deixar “falar” as mãos foi o objectivo principal que nos levou à participação no V Encontro Regional de Educação. Das muitas formas possíveis para o fazer e atendendo, por um lado, aos objectivos do encontro; por outro lado, ao perfil e motivação das autoras, optámos por um formato de comunicação oral (na altura também com recurso a LGP) que combinasse a divulgação com uma narrativa da experiência de participação num curso de LGP. Ora, é justamente este o registo que assumimos também aqui, agora sobre a forma textual* . Iniciamos, então, o nosso texto com uma introdução à temática da surdez organizada a partir de um conjunto de questões que julgamos serem aquelas que com mais frequência o público não especializado coloca em torno da LGP. Num segundo momento fazemos uma incursão exploratória sobre a formação em LGP para ouvintes em Portugal, nomeadamente, os promotores, os objectivos que visam alcançar e as competências que permitem adquirir. Por último, e a partir de um ponto de vista que é o das autoras ouvintes deste texto, traçamos um “retrato impressionista” desta experiência de ensino-aprendizagem. Para isso reunimos um conjunto de notas soltas, escritas a várias mãos, e que organizámos tematicamente quanto aos protagonistas, contexto, conteúdos, recursos e avaliação do processo de ensino-aprendizagem. De forma transversal e complementar, julgamos que uma reflexão como esta pode ajudar a trazer à discussão a importância dos cursos de LGP, não apenas para a comunicação entre surdos e ouvintes, mas também na sensibilização para os problemas que enfrenta a comunidade surda em Portugal**.

* - Este não é, pois, um artigo científico sobre o ensino e a aprendizagem de LGP mas antes um testemunho pessoal sobre uma experiência particular de ensino-aprendizagem, registo que, aliás, estava previsto no formato do Encontro Aprender no Alentejo. Eis, a este propósito, as palavras do Presidente da Comissão Organizadora do Encontro no respectivo texto de apresentação: «[…] o Aprender no Alentejo trará os testemunhos de múltiplas realidades alentejanas de educação e de formação. Aos testemunhos científicos dos investigadores juntam-se os relatos daqueles(as) que, nas escolas, nos centros de formação, nas autarquias ou nas instituições da sociedade civil, vão, com o seu trabalho, construindo essa infra-estrutura básica para o desenvolvimento que é a qualificação.» (Nico, 2008).
** - Para além da apresentação da comunicação que está na origem deste texto ao V Encontro Regional de Educação, outras iniciativas de divulgação já levadas a cabo pelas autoras incluem a criação e manutenção de espaços virtuais destinados à divulgação de informações relacionadas com a temática da LGP e da surdez em geral, nomeadamente, o “Gestual(ta)mente” [Disponível em URL: http://www.gestualtamente.blogspot.com], um blogue criado em Novembro de 2006 e mantido até ao final do curso de LGP/Nível I, e também o “INFORGESTUAL”, criado em Janeiro de 2008 [Disponível em URL: http://www.inforgestual.blogspot.com].


2. Para começar, 5 perguntas…

Devemos falar em surdos ou surdos-mudos? O que é a Língua Gestual Portuguesa? Língua ou Linguagem Gestual? A Língua Gestual Portuguesa é universal? Intérpretes ou docentes de LGP? Eis algumas das questões a que urge responder numa introdução à temática da surdez e da Língua Gestual Portuguesa.

No dia-a-dia ouvimos frequentemente as expressões “surdo” e “surdo-mudo”, ambas utilizadas indiscriminadamente. Este é, provavelmente, o erro mais antigo e mais frequente no senso-comum em relação às pessoas surdas, uma vez que cada uma destas expressões é clinicamente distinta. Uma pessoa surda é, efectivamente, alguém que não ouve, que possui uma deficiência auditiva ou surdez total ou parcial e, por esse motivo, não consegue exprimir-se oralmente de forma adequada. Por sua vez, a expressão “surdo-mudo” é referente à pessoa que tem aliado à surdez algum problema no aparelho fonador, o que a impede de emitir sons. Deste modo, a expressão “surdo-mudo” é vista pela comunidade surda como um erro social algo pejorativo. De forma lamentável, a falta de informação faz com que este erro seja cometido e repetido quotidianamente, inclusive nos meios de comunicação social.

A Língua Gestual Portuguesa «é uma língua visuo-motora, cuja produção se processa através dos gestos e das expressões facial e corporal, e cuja percepção se realiza através da visão» (Cavaca, 2008, p. 8) e na qual a expressão facial e o gesto ganham uma dimensão muito maior e uma riqueza muito mais visível que se fundem numa comunicação natural entre os interlocutores. Ao ser utilizada por pessoas surdas que comunicam entre si constitui uma marca importante da sua identidade e um elemento unificador particularmente importante na comunidade surda, precisamente «[…] enquanto meio de transmissão de valores e da herança cultural das pessoas surdas» (Cavaca, 2008, p.8). A LGP é, assim, considerada como a língua materna da comunidade surda e, por conseguinte, a sua aquisição plena constitui um direito de todas as crianças surdas. Como afirmam os autores do Programa Curricular de Língua Gestual Portuguesa Educação Pré-Escolar e Ensino Básico, «O desenvolvimento de qualquer criança depende da aquisição e do desenvolvimento de uma língua, para que se estruture o seu pensamento. […] Para os alunos surdos, o domínio da sua primeira língua, a LGP, é decisivo no desenvolvimento individual, na construção da identidade, no acesso ao conhecimento, no relacionamento social, no sucesso escolar e profissional, em todo o percurso futuro e no exercício pleno da cidadania.» (Cavaca, 2008, p. 8).

Quanto à expressão “linguagem gestual”, como tão frequentemente se ouve, é errada, uma vez que o termo “linguagem” remete para a representação do pensamento por meio de sinais que permitem a comunicação e a interacção entre pessoas, quando na verdade, e à semelhança das outras línguas, a LGP tem uma gramática* e um dicionário próprio (O Gestuário de Língua Gestual Portuguesa).

* - A Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a Língua Portuguesa são bastante diferentes do ponto de vista da estrutura frásica. Seguindo os exemplos fornecidos por Renato Pereira, a frase em LP: “Eu compro o carro”, em LGP diz-se: “carro” + “eu” + “comprar”, 1.º (objecto) + 2.º (sujeito) + 3.º (verbo) = OSV ao contrário de LP que é de SVO. Ou, noutro exemplo, a frase com interrogação (?), em LP: “Como vais para o emprego?” (Transporte), em LGP diz-se: “emprego” + “tu” + “ ir” + “como”? (Pereira, 2005b).

Não há universalidade no que à existência de uma única língua para os surdos de todo o mundo diga respeito. Assim, ainda que existam gestos idênticos, eles assumem significados diferentes nas diferentes línguas. Nos países onde existem duas ou mais línguas faladas oficialmente, como no caso da Bélgica, da Suíça ou da Espanha, existe o mesmo número de línguas gestuais. À semelhança do que acontece com a aprendizagem de uma qualquer língua vernácula, também as pessoas surdas, tal como os ouvintes, são educadas de acordo com a língua gestual da sua região e raramente o serão numa outra língua do país. No caso da LGP, a relação entre língua e cultura assume, assim, particular importância. De facto, «É importante salvaguardar que qualquer língua está impreterivelmente ligada a uma cultura e que por esse motivo não seria possível tratar a língua gestual sem abordar a Cultura Surda com especial atenção. A Cultura Surda manifesta-se em toda a envolvência da língua gestual, desde a sua natureza visuo-espacial, às regras implícitas na interacção, à lógica visual que motiva a sua estruturação gramatical e a todos os conteúdos veiculados entre os seus falantes.» (Cavaca, 2008, p. 9).

Finalmente, importa esclarecer a distinção entre intérprete e docente de LGP. O primeiro é obrigatoriamente ouvinte e na sua prática profissional realiza tradução em LGP ou oralmente, visualizando os gestos. Porque a maioria da população não tem conhecimentos em Língua Gestual, a comunicação com a comunidade surda é feita por meio de intérpretes de língua gestual, daí «a necessidade de intérpretes com bons conhecimentos de língua gestual portuguesa que possam ajudar à comunicação entre ouvintes e pessoas surdas e entre estas e entidades oficiais, tais como: tribunais, polícia, maternidade, consultas de advogados, simpósios, encontros culturais e desportivos, colóquios, notícias de telejornal, encontros de pessoas com deficiência, etc. […]» (Pereira, 2005b). Desta forma, os intérpretes desempenham um papel fundamental na adaptação, integração e comunicação em geral das pessoas surdas e das sociedades, «permitindo uma maior compreensão dos surdos pelo resto da população» (Pereira, 2005b). O intérprete não se pode confundir com o docente de LGP que, por sua vez, é necessariamente surdo e ensina a sua língua materna (LGP) a pessoas surdas e ouvintes. Para tal, deve preencher alguns requisitos, nomeadamente, estar devidamente habilitado, ter como língua materna a LGP, e possuir uma identidade psicológica e uma cultura surda. É este, aliás, o princípio subjacente à elaboração do Programa Curricular de Língua Gestual Portuguesa Educação Pré-Escolar e Ensino Básico. Como referem os autores, «Está aqui subentendido que o utilizador principal deste Programa Curricular é o docente da disciplina da LGP que é quem faz a transmissão dos conteúdos, garantindo a aquisição das competências propostas. Este profissional terá necessariamente de dominar a LGP enquanto língua materna, de forma a poder ensiná-la correctamente como tal.» (Cavaca, 2008, p. 7).

Esclarecido que está este conjunto de questões iniciais, fazemos agora uma pequena incursão sobre os cursos de LGP para ouvintes oferecidos em Portugal. Em concreto, detemo-nos sobre os promotores, objectivos que visam alcançar e competências que permitem adquirir.

3. Rasgos no silêncio: o ensino de LGP a ouvintes

Os cursos de ensino de LGP existem para responder à necessidade de comunicação entre a comunidade surda e a comunidade ouvinte. Todavia, sabemo-lo, devido à persistência de diversas discrepâncias no que se refere ao acesso a cursos de ensino de LGP (por vezes devidas a factores geográficos, outras vezes por questões socioeconómicas, etc.), ainda existem em Portugal inúmeras pessoas surdas que nunca tiveram acesso à língua gestual. Consequentemente, é dada prioridade, aquando da formação das turmas, a pessoas surdas que nunca tenham tido acesso ao ensino de LGP, a familiares de pessoas surdas e a profissionais que trabalhem com este tipo de população*. Sempre que possível – o que geralmente está dependente do número de interessados ser ou não suficiente – será preferencialmente constituído um grupo único em função das características dos formandos (ouvinte ou surdo) e dos motivos que os levam a frequentar o curso**. Por fim, importa também referir o facto de estar contemplada a possibilidade de desenvolver formações para as famílias em conjunto com as respectivas crianças surdas, bem como a possibilidade de qualquer pessoa que se interesse pela aprendizagem desta língua frequentar um dos diversos cursos existentes (APS, 2008).

* - Na Associação de Surdos de Évora a ordem dos critérios de selecção para a formação de turmas é a seguinte: (1.º) surdos; (2.º) profissionais, educadores e outros técnicos que trabalham com a problemática; (3.º) familiares, amigos de pessoas surdas e outras pessoas interessadas em aprender LGP (ASE, 2008).
** - Entre os destinatários ouvintes dos cursos de LGP permitimo-nos destacar os pais e professores. De facto, é de extrema importância que os pais ouvintes comuniquem gestualmente com os seus filhos surdos, como também que os professores (dos vários níveis de ensino) tenham o conhecimento mínimo desta língua para poderem utilizá-la com os seus alunos surdos e assim exercer a sua profissão de forma mais eficiente e não discriminatória (Pereira, 2005b).


De um modo geral, podemos afirmar que os cursos de ensino de LGP têm como objectivo estruturante o desenvolvimento de competências de comunicação em língua gestual portuguesa. Paralelamente, visam promover a aquisição de conhecimentos sobre a comunidade surda portuguesa e a sua cultura. Os principais promotores do ensino de LGP a ouvintes são, para além da Associação Portuguesa de Surdos*, as associações regionais/locais de surdos, universidades, institutos politécnicos e escolas superiores de educação que desenvolvem regularmente cursos livres e/ou cursos de verão, e também instituições privadas várias**.

* - Além dos cursos regulares de LGP, a APS promove também outras formações adequadas a objectivos específicos, como por exemplo as dirigidas a grupos profissionais interessados em determinadas áreas lexicais da LGP ou a grupos infantis a partir dos 5 anos (cursos de 60 horas). Para pessoas que queiram apenas uma familiarização com a LGP e com a Comunidade Surda, a APS dispõe de formações mais curtas (cursos de 30 horas), designadamente os cursos de Verão (APS, 2008).
** - Isto acontece de forma directa ou indirecta, na medida em que há, por exemplo, empresas privadas e autarquias que recorrem à APS para promover cursos de LGP junto dos seus colaboradores (Mateus, 2007).


Nos últimos anos, o ensino de LGP parece ter ganho uma maior visibilidade, ao mesmo tempo que tem registado um interesse crescente por parte de ouvintes de várias áreas de formação (Mateus, 2007). Professores, educadores de infância, auxiliares educativos, enfermeiros, psicólogos e oficiais de justiça, são alguns dos profissionais que mais procuram os cursos de LGP e, na maioria dos casos, «[…] não iniciam a aprendizagem por qualquer imposição laboral ou na expectativa de uma valorização imediata dos seus currículos. Fazem-no por gosto pessoal e por ânsia de dominar todas as formas de comunicação. Muitos, iniciam esta aprendizagem ainda enquanto estudantes.» (Mateus, 2007).

Os cursos de LGP podem ser estruturados em níveis iniciais (I e II), intermédio (III) e avançados (IV e seguintes), de acordo com o grau de dificuldade e os conteúdos leccionados. No nível inicial (I) prevê-se que os formandos adquiram determinadas competências básicas de comunicação, nomeadamente: compreender e usar expressões do quotidiano; apresentar-se e apresentar outros, utilizando o alfabeto manual; fazer perguntas e dar respostas sobre aspectos pessoais e comunicar de modo simples se o interlocutor falar lentamente; compreender frases isoladas e expressões frequentes relacionadas com áreas de prioridade imediata; comunicar em tarefas simples e em rotinas familiares e habituais; descrever de modo simples a sua formação escolar e profissional, o meio circundante, tal como referir assuntos relacionados com necessidades imediatas; desenvolver competências de comunicação em LGP e favorecer a aquisição de conhecimentos sobre a comunidade surda e a sua cultura (APS, 2008). Com efeito, os conteúdos formativos estão estritamente relacionados com as competências acima mencionadas, das quais destacamos, essencialmente devido à sua importância e frequência no diálogo quotidiano, o alfabeto gestual, as formas de saudação, as características humanas e os sentimentos, os dias da semana, os meses e as estações do ano, a habitação e as suas divisões, bem como os hábitos e rotinas diárias, entre muitos outros.

Apresentado o curso de LGP/nível I, reunimos agora um conjunto de ideias-chave em torno desta experiência concreta de ensino-aprendizagem. Estruturámos a nossa reflexão em função dos tópicos “protagonistas”, “contexto”, “conteúdos”, “recursos” e “avaliação”, e procurámos ilustrar cada um deles com alguns exemplos do que no plano pessoal consideramos icónico desse processo “diferente”. É o “retrato impressionista” que daí resulta, formado a partir de um conjunto de notas soltas e escritas a várias mãos que traçamos em seguida.

4. Uma experiência de ensino-aprendizagem “diferente”: retrato impressionista, na 1.ª pessoa e escrito a várias mãos…

Sobre os protagonistas (professora e alunos): o silêncio interpela-nos a aproximarmo-nos do outro, mas também de nós mesmos

Numa situação de ensino-aprendizagem comum é usual começarmos, na primeira sessão, por fazer uma apresentação. Quase sempre interpelados pelo formador, antes ou após a sua própria apresentação somos convidados a dizer “como nos chamamos”, “o que fazemos”, “de onde vimos”, “porque estamos ali”, etc. Neste caso, nada disso aconteceu. O conhecimento dos outros foi progressivo no tempo e acompanhou o próprio aprofundamento dos conteúdos. Foi à medida que aprendemos a comunicar em LGP que nos conhecemos melhor uns aos outros, não apenas do ponto de vista “objectivo” (nome, estado civil, residência, profissão, etc.), mas também de um ponto de vista mais “subjectivo” ou “interior” (gostos, preferências, expectativas, etc.).

Uma curiosidade interessante é que durante muito tempo não sabíamos sequer os nomes uns dos outros. Numa das primeiras aulas escolhemos “nomes gestuais” para cada um de nós (“gancho_caracóis”, “olhos verdes”, “Branca de Neve”, “rapariga de sardas”, “sardas na bochecha”, etc.)* , ao mesmo tempo que também a professora fez a auto-apresentação com recurso ao seu nome gestual. Ironicamente, durante muito tempo soubemos melhor o nome gestual de cada um do que o seu próprio nome. Mesmo ainda hoje, quando nos reencontramos, por vezes lembramo-nos primeiro do nome gestual e só depois do nome próprio que nos identifica.

* - Estes nomes correspondem a uma interpretação para língua portuguesa dos nomes gestuais, o que por si só reduz desde logo a riqueza gestual dos mesmos. De referir que informalmente os “nomes gestuais” são particularmente importantes na identificação dos surdos entre si, já que não apenas constituem uma forma simples e imediata de identificação, como as suas particularidades permitem também com bastante rapidez distinguir duas pessoas com o mesmo nome próprio sem necessidade de recorrer ao apelido.

Sobre o contexto de ensino-aprendizagem: o silêncio é uma construção dos ouvintes

Um dos aspectos que mais impressionou a generalidade dos formandos na primeira aula foi o silêncio na sala. Com o tempo percebemos que o silêncio é, sobretudo, uma construção dos ouvintes. Naquele contexto em particular, o “problema” não era nós não ouvirmos a professora, ou o facto de a professora não nos ouvir a nós. O “problema” era mesmo o facto de não conseguirmos comunicar e de as formas que cada um de nós (formadora e formandos) tinha para o fazer (gesto e voz) não serem comuns. E demorou, demorou o tempo de aprender o mínimo de LGP, a perceber que teríamos sim de encontrar uma forma de nos “ouvirmos” mutuamente, mas sem voz. O consenso sobre o “denominador comum” era óbvio. E ele estivera sempre ali: as nossas mãos. Porém, dominar tal denominador comum… esse foi o verdadeiro desafio!

Assim se compreende a importância neste curso do contacto visual que mantemos, quer com a professora, quer com os colegas, imprescindível para que possamos acompanhar o processo de ensino-aprendizagem. Na ausência de voz que sirva de meio de comunicação entre professora e alunos, o aprender o Abecedário Gestual Português* – cuja aprendizagem não é tão difícil quanto aparenta –, e o ficar apto a poder “soletrar gestualmente” as palavras foi uma conquista fulcral para a comunicação entre professora e alunos.

* - Também denominado de dactilologia, ou seja, a representação de cada letra do abecedário de acordo com uma posição definida dos dedos na mão dominante (Pereira, 2005a).

Sobre os conteúdos: o desafio de comunicar o aparentemente mais simples

Estar no nível I de LGP é aprender a comunicar o mais elementar de uma “língua estrangeira”: as saudações, a apresentação de nós mesmos, os dias da semana, as cores, etc. A simplicidade destes conteúdos sensibilizou-nos para o desafio que representa a comunicação entre surdos e ouvintes, e a importância de ser capaz de compreender e/ou expressar a idade, a data de nascimento, o estado civil, o ser atendido num restaurante, numa repartição de finanças, etc. Ora, este desafio coloca-se tanto para os surdos quando não os entendemos, como também para os ouvintes quando não se conseguem fazer entender.

Por exemplo, um dia depois de uma aula decidimos sair para comer uma pizza. O grupo era constituído por cerca de quatro ouvintes e dois surdos. O desafio que então constituiu o tentar conversar sobre assuntos aparentemente simples e anódinos do dia-a-dia, como a diferença entre pizza napolitana e siciliana, entre a Sprite e 7up, ou sobre as notícias do dia que passavam na TV, como que nos obriga a “des-complicar” o mundo e torná-lo infinitamente mais simples. Comunicar através de LGP implica simplificar as gradações de multiplicidade e complexidade em que vivemos e procurar o essencial, o mais característico ou importante, não apenas no mundo à nossa volta mas também em nós mesmos.

Sobre os recursos: o principal recurso somos nós mesmos

Muitas vezes, ao comentar com familiares, colegas ou amigos, que estávamos a frequentar um curso de LGP, um dos aspectos que lhes causava mais indignação era o facto de termos uma professora surda. E a questão que colocavam era quase sempre esta: “mas como é que vocês aprendem?”. “É simples”, não nos cansávamos de dizer. De modo mais visível do que acontece noutros contextos de ensino-aprendizagem, em LGP não pode haver alunos passivos. Aprender LGP obriga a um envolvimento completo: o de ver e o de reproduzir o gesto, e com isso o de nos envolvermos todos: gesto, som e expressão facial. Em suma, nós somos o principal recurso para aquilo que queremos transmitir.

A propósito dos recursos de ensino-aprendizagem, na primeira aula, ansiosos por aprender “coisas novas”, a maioria de nós estava muito “equipada” com pasta, papel e caneta. Porém, não demorou muito a perceber que teríamos de colocar de parte o bloco e a caneta, silenciar a voz, tirar as mãos dos bolsos, e deixar “falar” as mãos…

Sobre a avaliação: nota positiva para os pequenos grandes gestos no e do quotidiano

Como forma de preparação para a avaliação final fizemos, em dois momentos distintos, gravações vídeo de uma conversação em LGP com a professora. O visionamento, a posteriori e em grupo, destas gravações trouxe-nos, a pouco e pouco, uma auto e hetero-avaliação dos nossos pequenos progressos. Para alguns, foi mesmo um confronto difícil com a aparente “ridicularização” de nós mesmos. Para a maior parte de nós, a avaliação final trouxe-nos, sobretudo, a certeza do pouco que sabíamos. O confronto com dois examinadores da Associação Portuguesa de Surdos, sem o reconfortante ruído dos colegas ou o olhar condescendente da professora, deixou-nos, como nunca, vulneráveis ao silêncio do outro (surdo) e à tomada de consciência da necessidade crucial do gesto. De todas, a melhor nota acabou por ir para a sensibilização e para os pequenos grandes gestos no e do quotidiano.

A avaliação final fica, por exemplo, na surpresa ou satisfação que percebemos no rosto das pessoas quando conseguimos comunicar mesmo as mais pequenas coisas: quando um dia, por razões profissionais, uma de nós se deslocou aos serviços da Câmara Municipal de Évora e pode comunicar o suficiente com um funcionário surdo; de uma amiga que é assistente dentária e nos pedia que lhe ensinássemos alguns gestos, pois tem uma paciente surda que gostaria de entender melhor; ou de uma outra amiga que nos perguntava como se diz “obrigado” em LGP para que pudesse agradecer a um funcionário da Biblioteca Nacional que é surdo.

“Mãos que falam”* é, porventura, a mais profícua das metáforas para traduzir o poder e, consequentemente, a importância dos gestos na comunicação entre surdos. Mas essas “mãos que falam” podem também desempenhar um papel muito importante na comunicação entre surdos e ouvintes. A questão essencial não está, pois, na oposição entre voz e silêncio. Na verdade, muitos dos gestos também estão associados a sons, expressão facial e corporal. A diferença parece estar, afinal, nesse lugar que nos serve de epígrafe – a place... where we can meet... not in silence... and not in sound –, e naquilo que estamos dispostos a fazer para o encontrar.

* - “Mãos que falam” é o título de um sítio na Internet que divulga conteúdos relacionados com a surdez [Disponível em URL: http://www.maosquefalam.com].

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Pereira, Renato (2005a), «Introdução – Língua Gestual Portuguesa. Linguística», in ABC Gestual, [Disponível em URL: http://abcgestual.no.sapo.pt/D3.htm, consulta em 20-05-2008].

Pereira, Renato (2005b), «LGP – Objectivos no Futuro», in ABC Gestual, [Disponível em URL: http://abcgestual.no.sapo.pt/D4.htm, consulta em 20-05-2008].



Márcia Gouveia, curso de LGP (Língua Gestual Portuguesa) – 1.º nível (ASE, Évora – Portugal). É licenciada em Psicologia – Ramo Educacional, pela Universidade de Évora. Actualmente é psicóloga das Equipas de Intervenção Precoce de Alter do Chão, Sousel e Fronteira (Norte Alentejo, Portugal).


E-mail: marciachgouveia@gmail.com


Rosalina Costa, curso de LGP (Língua Gestual Portuguesa) – 1.º nível (ASE, Évora – Portugal). É licenciada em Sociologia e mestre em Sociologia na área de especialização “Família e População”. Actualmente é assistente universitária na Universidade de Évora e prepara as suas provas de doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL, Lisboa, Portugal).
E-mail: rosalina@uevora.pt


Sandra Gomes, formadora em LGP habilitada com o Curso de Formação Profissional de Formadores de Língua Portuguesa e o Curso de Formação Contínua de Formadores em LGP (APS, Lisboa – Portugal). Actualmente é formadora de Língua Gestual Portuguesa na Unidade de Surdos da Escola EB 2.3 de Cristóvão Falcão em Portalegre e frequenta o curso de LGP na Escola Superior de Educação de Coimbra (Portugal).
E-mail: sandra_santos1@hotmail.com