O QUE SIGNIFICA SER SURDO?
Conhecendo um pouco do que significa ser surdo
através de discussão do filme “Seu nome é Jonas”


Por MARIA A. AMIN DE OLIVEIRA

Resumo

O artigo relata a experiência de alunos de um curso de língua brasileira de sinais (Libras) ao assistirem o filme “Seu nome é Jonas” e fazerem a correlação da ficção com a realidade da pessoa surda. Pontos essenciais de discussão foram levantados quanto à importância da língua de sinais para o surdo, a dificuldade de adaptação da família, a incompreensão da comunidade e a força libertadora da língua de sinais para o surdo. Os alunos perceberam que não basta aprender a língua de sinais, é preciso conhecer o que significa “ser surdo”, os problemas enfrentados na vida diária e a cultura surda para uma real inclusão na sociedade.

Palavras-chave: Surdez. Língua de sinais. Cultura surda.

INTRODUÇÃO

O objeto de estudo é o desconhecimento por parte da população ouvinte do que significa ser surdo. Para os ouvintes ser surdo é apenas não ouvir, pois não alcançam a extensão do que significa “não ouvir” na vida de uma pessoa, criança ou adulto.

Esta realidade é percebida na família da pessoa surda, destacando-se que 90 a 95% das crianças surdas nascem em lares com pais ouvintes, observada nos cursos de língua brasileira de sinais (Libras) e na população em geral e mesmo entre ouvintes que estão envolvidos de alguma forma com o surdo e sua educação.

Esta barreira na comunicação é a principal queixa dos surdos em relação aos ouvintes. Por que os surdos são obrigados a assimilar a língua oral e os ouvintes não podem despender um pouco de tempo para aprender a língua de sinais? Em casa cria-se uma “linguagem doméstica” entre a criança surda e seus familiares, usando, na maioria das vezes, o apontar. Portanto, a comunicação fica bastante restrita aos fatos concretos e o aprendizado da criança surda é prejudicado pela falta de informações básicas e por isso, muitos surdos adultos têm menos conhecimento do que uma criança ouvinte.

Agregado à falta de comunicação vem o desconhecimento da cultura surda e do real significado de “ser surdo”. Ser surdo não é apenas “não ouvir”. É muito mais amplo. É ver o mundo de uma forma totalmente diferente da ótica de mundo do ouvinte. É apreender conhecimento, significar o mundo e a si mesmo através da visão, daí a importância da língua de sinais para a pessoa surda. Segundo Hall,1997, os membros de uma cultura usam a língua para produzirem significado. Sendo assim a pessoa surda vai significar as coisas ao seu redor à medida que o fizer em língua de sinais. A discussão da relevância da língua de sinais para os surdos foge ao objetivo deste artigo, mas não podemos deixar de admitir o poder que esta língua tem e de defendermos o seu ensino às pessoas surdas e ao maior número de ouvintes possível.

No curso de Libras para ouvintes, com pretensão à atuação de intérpretes e educação de surdos, foi grande o desconhecimento apresentado do que é o indivíduo surdo. Para os alunos aprender língua de sinais era o suficiente para se tornar um bom profissional. No entanto, é preciso que se tenha também uma compreensão ampla dos problemas enfrentados na vida diária dos surdos e os entraves existentes na educação e na inserção no mercado de trabalho para que haja uma real integração entre os mundos: ouvinte e surdo.

Somente o conhecimento da cultura surda traz o respeito necessário e de direito na relação ouvinte-surdo, intérprete–surdo, professor ouvinte–surdo.
De que modo mudar a concepção que os alunos têm da pessoa surda? Como construir este aprendizado?

Como a maioria dos alunos não tem contato frequente com surdos optamos por usar filmes que abordam a temática da surdez, em especial o filme “Seu nome é Jonas”. A mídia, no caso em análise, o cinema, tem um papel importante a partir do momento em que reflete a ótica da sociedade sobre determinado assunto e tem o poder de modificar esta visão, contribuindo para a transformação coletiva.

O filme trouxe à discussão temas que de outra forma os alunos não teriam acesso e instigou o levantamento de questões elencadas à surdez, à pessoa surda e aos seus problemas enfrentados na vida diária. Por meio do filme foi possível perceber as dificuldades existentes na vida familiar, social e escolar das pessoas surdas.

O impacto deste filme sobre os alunos foi bem positivo, gerando ampliação dos olhares analíticos para a pessoa surda, modificação na aceitação e compreensão do surdo, sua cultura, necessidades e potencialidades.

O FILME

O filme “Seu nome é Jonas” conta a história de um menino surdo de mais ou menos nove anos de idade que foi diagnosticado como deficiente mental e ficou em uma instituição durante três anos. Começa com os pais sendo informados de sua surdez e levando-o para casa. Retrata a dificuldade de adaptação da família, as buscas por uma boa educação, a exclusão familiar e social e finalmente, apresenta uma solução para o dilema: a língua de sinais como mediadora de conhecimentos e comunicação.

A PERCEPÇÃO DOS ALUNOS OUVINTES

O filme é muito rico em temas para discussão e os alunos levantaram questões em relação aos pais que se mostraram perdidos, sem saber que perguntas fazer aos profissionais sobre o assunto, recebendo informações contraditórias, que lhes trouxeram insegurança quanto às escolhas para a educação do filho surdo. Foi notória a quebra do equilíbrio familiar com a presença do surdo e a dificuldade de comunicação provocando a falta de autoridade dos pais e a impossibilidade de colocação de limites na criança. A culpa e a vergonha da surdez são desencadeadas pela discriminação da comunidade, assimiladas diferentemente por cada um dos pais, conforme a reação que apresentam ao filho surdo: a angústia da mãe em não poder se comunicar, não ser capaz de ensinar ou mesmo de entender o que seu filho deseja e a inabilidade do pai em lidar com a situação motivando a separação do casal.

A frustração da criança surda por não se fazer entender pelos ouvintes gera como reação a agressividade. Este comportamento é visto com frequência nas pessoas surdas, pelo qual são taxadas de agressivas, inquietas, impacientes e muitas vezes são levadas para tratamentos clínicos.

Uma mãe, participante do grupo de discussão, relatou o triste episódio de seu filho surdo, que não foi convidado para uma festa de aniversário no prédio em que moravam, para não atrapalhar a festa com a sua inquietude.

É a rejeição persistente da comunidade (amigos e vizinhos), se transformando em vergonha e isolamento pessoal e familiar. A mesma mãe se manifestou confirmando que vivencia até hoje esta rejeição que também acontece por parte dos familiares, que se recusam inclusive a ficar com a criança, ou não a convidam para dormir em suas casas.

O filme apresenta também a ilusão da comunicação entre os ouvintes e o surdo, como vemos na cena em que uma tia ouvinte acha que é compreendida pela criança surda ao lhe oferecer um prato com biscoitos e lhe perguntar oralmente se quer um e a criança aceita por uma reação natural. A jovem surda se manifestou confirmando que isto ocorre em sua família até hoje, quando nas reuniões familiares os ouvintes olham e conversam com ela acreditando que ela está entendendo tudo. Em sua família ninguém se interessou em aprender a língua de sinais.

A história de Jonas nos permite perceber as várias modalidades de ensino, direcionadas à pessoa surda, porém privilegiando a oralidade e não valorizando a língua de sinais, na maioria das vezes.

Acrescente-se a todas as dificuldades já mencionadas pelo filme, a existência, às vezes dramática, dos perigos enfrentados pelos surdos na vida diária, muito bem retratada na cena em que o policial quer ajudar a criança, mas por ela não ouvir, não entende e assustada foge, sendo alvo de perseguição policial. Na realidade, muitos maus entendidos ocorrem por falta de comunicação e, ainda hoje, surdos são presos injustamente, filhos são duramente corrigidos pelos pais sem que tenham a menor ideia do por que desta correção.

O grupo de discussão observou o resultado positivo do contato da mãe com a comunidade surda, quando os horizontes se abrem, um mundo novo é descoberto e as perguntas começam a ser respondidas. A partir de então ela pode vislumbrar um futuro para o seu filho surdo, fato que, até então, não lhe era possível.

Também foi percebida, na análise da história, a necessidade da convivência da criança surda com o adulto surdo e o tempo requerido pela criança para o aprendizado da língua de sinais. A criança surda não sabe que é surda até que lhe contem e quando inicia o contato com a língua de sinais ela não entende que aqueles gestos têm significado. Só com o tempo é que ela descobre o segredo, a ligação entre sinal e significado representado nas cenas finais quando Jonas consegue aprender que os sinais utilizados pelo surdo adulto estão designando coisas, pessoas e animais.

A cena final exibe um Jonas alegre e confiante ao se apresentar aos colegas da nova escola onde são usadas a fala e a língua de sinais, mostrando a força libertadora da língua e seu poder de inclusão social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar do filme “Seu nome é Jonas” apresentar uma concepção da surdez existente no ano de seu lançamento em 1979 ele se mantém atual nas questões construídas pelo grupo.

O resultado foi o esperado com os alunos levantando questões práticas e buscando eco na realidade. A presença do surdo e da mãe de surdo no grupo ajudou bastante, dando validade e atualização às discussões que assim saíram do campo apenas teórico. Estas pessoas puderam expressar suas angústias pessoais e os alunos compararam-nas com as apresentadas no vídeo percebendo que são aflições comuns a todos que ainda hoje vivenciam a mesma situação, a qual somente o conhecimento da identidade surda poderá modificar.

Os olhares para os pais de surdo mudaram ao compreenderem que eles ficam perdidos à mercê de profissionais bem intencionados, mas que nem sempre têm a melhor opção.

O “não ouvir” ficou mais claro para todos. Ser surdo não é apenas não ouvir ou ouvir pouco, mas é ter uma característica diferente, ver o mundo e apreender a realidade com os olhos. É ter uma cultura própria com sua língua natural. Os alunos perceberam a importância da língua de sinais na vida de uma pessoa surda e o poder libertador que ela tem ao proporcionar ao surdo informações do mundo ao seu redor e permitir que ele expresse seus sentimentos e opiniões.

Com o filme foi possível mostrar aos alunos ouvintes uma realidade que de outra forma seria ignorada, como os problemas enfrentados diariamente pela pessoa surda, a discriminação, a exclusão familiar e social, a angústia do surdo ao olhar o mundo e não compreendê-lo. Este conhecimento transformou a relação entre eles e a pessoa surda, gerando uma interação mais igualitária e respeitosa.

Muitas questões levantadas pelo filme são passíveis de estudo e pesquisa além de ser material rico para discussões em salas de aula, grupos de pais ouvintes de crianças surdas, nas empresas que se propõem a uma equipe inclusiva e na própria comunidade.

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Maria A. Amin de Oliveira é médica, neurologista da infância e adolescência com Especialização em Saúde Mental e Desenvolvimento Infanto Juvenil. Aluna da Pós graduação do Instituto Eficaz de Maringá, curso Especialização em Língua Brasileira de Sinais e Educação Especial. Certificada pelo MEC, Prolibras 2008, para o Ensino da Libras. Autora de livros infantis, sendo um deles sobre a temática da surdez (Um mistério a resolver- O mundo das bocas mexedeiras) e dois sobre educação infantil religiosa (A primeira Bíblia de Natália e Lucas e O Céu – a Casa do Pai).
E-mail: mariamin@viasdosaber.com.br
Site: www.viasdosaber.com.br