MITOS DA LÍNGUA DE SINAIS NA PERSPECTIVA
DE DOCENTES DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

Por Neuma CHAVEIRO,
Claudney Maria de Oliveira e SILVA,
Ana Paula Massi de Oliveira e SILVA,
Flávia Pereira da SILVA,
Maxwell Souza da Silva MATOS,
Polyana Rodrigues BORGES.

RESUMO

Esse artigo tem como objetivo discutir os mitos sobre a Língua de Sinais na concepção de professores da Universidade Federal de Goiás. Pesquisa descritivo-analítica, com abordagem qualitativa, a amostra constou de dez professores da Universidade Federal de Goiás. Para coleta de dados foi utilizado um questionário semiestruturado, com perguntas abertas e fechadas. Constatou-se nos depoimentos dos sujeitos da pesquisa que existem muitos mitos em relação à Língua de Sinais: a maioria não reconhecem a Língua de Sinais como um sistema linguístico, desconhecendo a identidade e cultura surda. É imprescindível que haja a desmistificação dos mitos relacionados à Língua de Sinais, portanto, há necessidade de formação e divulgação, especialmente para comunidade acadêmica, representada neste trabalho pelos professores.

INTRODUÇÃO

A palavra mito é descrita como: “Narrativa de significação simbólica, transmitida de geração em geração dentro de um determinado grupo, e considerada verdadeira por ele. Coisa ou pessoa fictícia, irreal” (FERREIRA, 2004). Assim, percebemos que os mitos são histórias fictícias que, consequentemente, não têm fundamento científico, mas que povoam o imaginário coletivo e o senso comum, assumindo status de verdade incontestável. No caso das Línguas de Sinais, ainda persistem muitas concepções equivocadas, que distorcem a realidade da cultura surda e não correspondem de fato aos valores que lhes são atribuídos.

A Língua de Sinais faz parte da cultura surda e, assim como qualquer outra, é carregada de significação social. Sabe-se que para conhecermos um povo e sua cultura é necessário conhecermos sua forma de comunicação, no caso a língua. Esta, ao mesmo tempo em que permite a troca de informações e ideias, veicula discursos, expressa subjetividades e também identidades. O mesmo ocorre com o uso de sinais pelos surdos. A Língua de Sinais, portanto, ultrapassa os objetivos de uma simples comunicação e se constitui na expressão da identidade de uma comunidade (SKILAR, 1998; PERLIN, 1998).

As Línguas de Sinais igualam-se às Línguas Orais por exercerem as mesmas funções linguísticas na vida de seus usuários. Trata-se de uma língua independente dos demais sistemas linguísticos. Ela é considerada, assim, uma Língua Natural desenvolvida pela comunidade surda, possibilitando o acesso dessas pessoas a todas as atividades sociais (GOLDFELD, 1997).

Diante disso, essa pesquisa tem, primeiramente, o objetivo de esclarecer o que de fato são as Línguas de Sinais. Em segundo lugar, pretende-se fazer um levantamento dos mitos que povoam o imaginário coletivo acerca da comunidade surda, bem como do uso que esta faz das Línguas de Sinais. Em seguida, pretende-se verificar a concepção de professores da Universidade Federal de Goiás (UFG) a esse respeito, utilizando-se, para isso, de entrevistas gravadas em áudio, as quais serão transcritas e analisadas de forma crítica e reflexiva a luz de textos teóricos. Com isso, espera-se promover um espaço de esclarecimento e discussão dos mitos que permeiam a realidade dos usuários das Línguas de Sinais.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As Línguas de Sinais são as Línguas Naturais das comunidades surdas. Segundo Quadros e Karnopp (2004, p. 30), entende-se por Língua Natural:

[...] uma realização específica da faculdade de linguagem que se dicotomiza em um sistema abstrato de regras finitas, as quais permitem a produção de um número ilimitado de frases. Além disso, a utilização efetiva desse sistema, com fim social, permite a comunicação entre os seus usuários.


Dessa forma, as Línguas de Sinais não são apenas gestos e mímicas utilizados para facilitar a comunicação entre os surdos. Elas constituem um sistema linguístico complexo e muito bem estruturado como as línguas faladas.

As Línguas de Sinais são reconhecidas pela Linguística como uma língua viva e autônoma composta por aspectos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos próprios. Por meio dessa língua, seus usuários podem expressar pensamentos simples e também complexos. Nesse processo, eles utilizam a expressão facial e corporal para fazer afirmações, negações, questionamentos, enfatizar, omitir, salientar, demonstrar desconfiança, etc.

[...] em Línguas de Sinais, são utilizadas marcas não-manuais, como expressões fisionômicas e movimentos do pescoço, em sincronia com o movimento manual, enquanto em línguas orais, é utilizada a modulação do contorno melódico (entoação e intensidade) da cadeia linguística, em sincronia com os segmentos fônicos (SALLES et al., 2002).


Enquanto nas Línguas Orais a modalidade é oral-auditiva, nas Línguas de Sinais, a modalidade é espaço-visual. Sendo assim, o que é reconhecido por palavra ou item lexical nas Línguas oral-auditivas denomina-se sinal nas Línguas espaços-visuais (SACKS, 1998).

Somente a partir da década de 60 que as Línguas de Sinais foram estudadas, analisadas e reconhecidas pela Linguística, ganhando, com isso, o status de língua. O trabalho de Stokoe representou o primeiro passo nesses estudos. A partir de suas pesquisas ficou comprovado que as Línguas de Sinais atendiam a todos os critérios linguísticos de uma Língua Natural quanto ao léxico, à sintaxe e à capacidade de gerar uma quantidade infinita de sentenças (WILCOX, S; WILCOX, P, 2005).

Estudos realizados com relação às Línguas de Sinais procuram desmistificar algumas afirmações errôneas quanto a essa modalidade da língua, como:

Mito 1: “A Língua de Sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

Ao contrário dessa afirmação, os estudos demonstram que as Línguas de Sinais podem sim expressar pensamentos abstratos. Por meio dela é possível discutir política, economia, matemática, física, psicologia ou mesmo produzir poemas e peças teatrais. Os autores SALLES et al. (2002) confirmam esse fato mencionando que:

Analisando recursos expressivos das Línguas de Sinais, Quadros (1995:1) ressalta que os sinais, em si mesmos, normalmente não expressam o significado completo do discurso. Este significado é determinado por aspectos que envolvem a interação dos elementos expressivos da linguagem. No ato da conversação, o receptor deve determinar a atitude do emissor em relação ao que ele produz (...) Os surdos utilizam a expressão facial e corporal para omitir, enfatizar, negar, afirmar, questionar, salientar, desconfiar e assim por diante. Alguns estudos investigam a hipótese de que essas expressões codificam propriedades gramaticais de categorias funcionais da estrutura oracional.


Portanto, a Língua de Sinais apresenta todos os aspectos linguísticos para ser considerada um instrumento de comunicação, de poder e força.

Mito 2: ”Haveria uma única e universal Língua de Sinais usada por todas as pessoas surdas” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

A Língua de Sinais não é universal, cada país tem a sua própria. Dessa forma, quando um surdo aprende uma segunda Língua de Sinais, por exemplo, ele utiliza sinais com sotaque estrangeiro. Quadros e Karnopp (2004, p. 33) ressaltam que:

Fazendo-se um exame dos dicionários das Línguas de Sinais de alguns países, comprova-se que nem todas as pessoas surdas fazem referência a um determinado referente usando o mesmo sinal. Woodward (1975c – comunicação pessoal, apud Battison 1978) compara 872 sinais da Língua de Sinais americana e francesa e conclui que, embora estas duas línguas sejam relacionadas historicamente, apenas 26, 5% dos sinais são idênticos. Além disso, pesquisas realizadas com surdos de 17 países demonstram que as línguas de sinais de diferentes países em geral não são entendidas por surdos estrangeiros.


Então, a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é diferente da Língua de Sinais Americana (ASL), assim como estas são diferentes da Língua de Sinais Italiana, Japonesa e assim por diante.

Mito 3: “Haveria uma falha na organização gramatical da Língua de Sinais, que seria derivada das Línguas de Sinais, sendo um pidgin sem estrutura própria, subordinado e inferior às Línguas Orais” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

As Línguas de Sinais não são simplesmente uma versão manual das Línguas Orais. Elas são completamente independentes uma da outra. Portanto, a Língua de Sinais, assim como a língua falada, é composta por sua própria gramática, semântica, pragmática, sintaxe e outros elementos que preenchem os requisitos básicos para ser considerada um instrumento linguístico eficiente. Esses aspectos constituem uma configuração sistêmica de uma nova modalidade de língua.

Mito 4: “A Língua de Sinais seria um sistema de comunicação superficial, com conteúdo restrito, sendo estética, expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

Essa afirmação se baseia na concepção errada que algumas pessoas têm com relação à estrutura da Língua de Sinais. Muitos pensam que essa língua não apresenta elementos como preposições e conjunções. No entanto, por ser uma língua de modalidade espaço-visual, a Língua de Sinais agrega esses elementos estruturais nos sinais por meio de expressões faciais e corporais. Os autores Quadros e Karnopp (2004, p. 35) reforçam a eficiência da Língua de Sinais da seguinte maneira:

Adicionalmente, não há limites práticos para a ordem, tipo ou qualidade de uma conversação em sinais, exceto aqueles impostos pela memória, experiência, conhecimento de mundo e inteligência. Em relação a isso as Línguas de Sinais não são diferentes das Línguas Orais.


Mito 5: “As Línguas de Sinais derivariam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

A Língua de Sinais apresenta todos os elementos classificatórios identificáveis de uma língua. Ela tem sua estrutura gramatical própria e é reconhecida linguisticamente como uma nova modalidade da capacidade de linguagem. Sendo assim, seu aprendizado demanda tempo e prática, como em qualquer outra língua.

Mito 6: “As Línguas de Sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial, enquanto que o esquerdo, pela linguagem” (QUADROS; KARNOPP, 2004).

Os estudos sobre as Línguas de Sinais comprovam que quanto à estrutura neurológica, as Línguas de Sinais apresentam organização semelhante à das Línguas Orais, pois ambas estão vinculadas ao hemisfério esquerdo do cérebro.

[...] o hemisfério esquerdo tem papel crucial na manutenção da língua de sinais. Mas, e o direito? Seria possível pensar que uma lesão no hemisfério direito, que parece decididamente envolvido em muitas funções vísuo-espaciais, teria também efeito devastador na capacidade de se comunicar por sinais. Essa suposição, porém, parece estar errada. Pessoas que se comunicam por sinais e têm lesão no hemisfério direito são fluentes e precisas na produção de sinais, usam a gramática normalmente e compreendem os sinais com facilidade. Isso acontece mesmo com pacientes cuja capacidade vísuo-espacial não linguística tenha sido gravemente afetada por lesão cerebral. Uma pessoa que se comunica por sinais com lesão no hemisfério direito, por exemplo, não pode criar ou copiar desenhos reconhecíveis e não é capaz de perceber objetos na parte esquerda do seu campo visual (uma condição conhecida como negligência hemiespacial). Contudo, pode se comunicar de modo muito eficiente na Língua de Sinais. (HICKOK ET AL., [s. d]).


Portanto, a Língua de Sinais se organiza no cérebro do mesmo modo que a Língua Falada. Além disso, ela não é simplesmente um conjunto de mímicas e gestos soltos utilizados pelos surdos para facilitar a comunicação. As Línguas de Sinais têm suas próprias estruturas gramaticais. Sendo assim, elas são tão importantes e tão complexas quanto às Línguas da modalidade oral.

METODOLOGIA

O presente estudo é de natureza descritivo-analítica, com abordagem qualitativa realizada na Universidade Federal de Goiás – UFG, considerada a mais apropriada para esta pesquisa por privilegiar significados, experiências, sentimentos e valores dos sujeitos envolvidos, num espaço mais profundo das relações (MINAYO, 1992).

A população deste estudo foi constituída por dez docentes da UFG, sendo cinco da Faculdade de Letras e os demais de outras unidades, que nesse caso foram Informática, História, Biblioteconomia, Matemática e Geografia.

A coleta de dados foi realizada no período de 24 a 30 de abril de 2009, no Campus II da Universidade Federal de Goiás. O instrumento utilizado para coleta de dados foi uma entrevista semiestruturada, com perguntas abertas e fechadas. As respostas foram gravadas em áudio e, posteriormente transcritas para a análise dos dados.

O questionário aplicado na coleta de dados foi construído com 17 questões, com objetivo de verificar o conhecimento dos sujeitos da pesquisa sobre a pessoa surda e os mitos das Línguas de Sinais. Devido à extensão do trabalho, optou-se neste artigo, por apresentar os dados referentes aos mitos das Línguas de Sinais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com o objetivo de verificar a concepção dos professores da UFG sobre a Língua de Sinais, procedeu-se a análise das entrevistas. As respostas dos sujeitos da pesquisa foram categorizadas tanto conforme ao mito a que se referem como às concepções de Línguas de Sinais. Para preservar a identidade dos participantes, foi utilizada a letra inicial da palavra “Sujeito” (S), seguida dos números das entrevistas para identificação dos relatos (S1, S2, S3...). Inicia-se, assim, a análise com o seguinte quadro:

QUADRO 1



Em relação à pergunta 5, percebe-se variações quanto ao entendimento sobre o que vem a ser uma língua concreta. Os sujeitos S1, S3, S5 e S8 compartilham do entendimento de que a Língua de Sinais é tão concreta e abstrata como todas as demais línguas no mundo. O sujeito S2 compreende língua “concreta” como uma língua mais explícita, no sentido de visibilidade. Nesse sentido, ele acredita que a Língua de Sinais é sim mais concreta que as demais línguas. Já o sujeito S6 entende que uma língua é concreta a partir do momento em que existe e que podemos aprendê-la. Sendo assim, ele concorda que a Língua de Sinais seja concreta, embora não tenha se manifestado quanto à comparação desta com as demais. Em relação ao sujeito S9, sua resposta revela a concepção de que não há unidades lexicais na Língua de Sinais, apenas representações gerais, envolvendo contextos e diferentes significados ao mesmo tempo. Por conseguinte, ele acredita que a Língua de Sinais não é uma língua concreta. Nessa mesma linha de raciocínio, o sujeito S10 acredita que gestos, conforme sua definição de Língua de Sinais, não caracterizam uma língua como concreta, mas como abstrata. Já em relação à pergunta 6, percebe-se que a maioria dos participantes se mostra consciente de que a Língua de Sinais não é única nem universal, variando conforme a nacionalidade e a cultura de seus usuários.

O discurso veiculado pelo mito 1 é de que os sinais não são símbolos arbitrários como as palavras, sendo apenas uma representação icônica ou pictográfica de seus referentes. Entretanto, as investigações linguísticas concluíram que os sinais expressam, sim, conceitos abstratos, não sendo seu aspecto icônico ou pictográfico o aspecto mais significante de sua estrutura (WILCOX, S; WILCOX, P, 2005.

Dessa forma, discussões sobre política, economia, filosofia, religião, entre outras, também podem ser feitas nas Línguas de Sinais, respeitadas as diferentes formas de expressão de conceitos conforme as diferentes culturas. Afinal, “uma Língua de Sinais não é transparentemente inteligível por surdos monolíngues de outra Língua de Sinais (QUADROS; KARNOPP, 2004: 32)”, o que se contrapõe à concepção do senso comum de que a Língua de Sinais é universal, conforme o mito 2.

Tome-se como exemplo as diferenças de significado para um mesmo sinal manual tanto na Língua de Sinais brasileira quanto na Americana. O sinal para NÃO na LIBRAS, apesar de ser considerado icônico, significa ONDE na Língua de Sinais Americana. Têm-se, assim, países diferentes com sinais semelhantes expressando conteúdos distintos. Nesse caso, a marca não manual associada ao sinal brasileiro envolve a expressão facial de negação, enquanto a marca não manual associada ao sinal americano envolve a expressão facial de interrogação. Tais sinais, portanto, assumem representações lexicais distintas, variando de acordo com as diferentes culturas, o que resulta em uma Língua de Sinais respectiva para cada país (WILCOX, S; WILCOX, P, 2005).

Quanto ao mito 4, o discurso veiculado é de que as Línguas de Sinais são pobres em termos de complexidade e poder de expressão. De acordo com esse mito, o léxico e a gramática nessas línguas não têm a capacidade de expressar proposições abstratas, humor e sutilezas como figuras de linguagem, limitando-se ao concreto. Entretanto:

Pesquisas realizadas mostram que poesia, piadas, trocadilhos, jogos originais, entre outros, são uma parte significativa do saber da cultura surda. Adicionalmente, não há limites práticos para a ordem, tipo ou qualidade de uma conversação em sinais, exceto aqueles impostos pela memória, experiência, conhecimento de mundo e inteligência. Em relação a isso, as Línguas de Sinais não são diferentes das Línguas Orais (HICKOK ET AL., [s. d]).


Na análise do terceiro mito, têm-se os seguintes dados:

QUADRO 2



Pelas respostas às questões 4 e 7, verifica-se que, apesar de a maioria dos sujeitos ter respondido que a Língua de Sinais é uma mistura de gestos, quase todos acreditam que a língua possui uma estrutura gramatical própria. Tem-se, portanto, que os sujeitos, em sua maioria, entenderam a pergunta 4 como relativa às unidades constitutivas do sinal. Outro dado é de que os sujeitos S6 e S8 diferenciam gestos de sinais, afirmando que a Língua de Sinais é composta tanto por sinais ou códigos quanto por gestos, sendo estes de caráter mais periférico ou paralinguístico em relação à gramática.

O discurso veiculado pelo mito 3 é de que as Línguas de Sinais são dependentes das Línguas Faladas nos países em que são produzidas. Todavia, isso não corresponde à verdade tendo em vista que as Línguas de Sinais também são Línguas Naturais, com léxico e organização interna próprios. Segundo esse mito, as Línguas de Sinais apenas “incluem elementos sublexicais e lexicais de acordo com a estrutura de Línguas Orais locais, sendo transliterações ou meros sinais traduzidos manualmente para palavras das Línguas Orais” (QUADROS; KARNOPP, 2004: 34).

Essa é uma concepção que provavelmente surgiu em função da possibilidade de representar enunciados da Língua Falada por meio de soletração manual das letras, ou seja, pelo alfabeto manual. Entretanto, trata-se de um empréstimo feito pelas Línguas Orais em relação às Línguas de Sinais, resultando em um código das Línguas Orais, o qual não é utilizado de forma exclusiva por nenhuma comunidade linguística para comunicação. Os surdos apenas utilizam o alfabeto manual em situações específicas, quando necessário (WILCOX, S; WILCOX, P, 2005).

Em respeito à organização gramatical das Línguas de Sinais, pesquisas mostram forte evidências “de que as Línguas de Sinais não são um apanhado de gestos sem princípio organizacional, mas consistem em uma configuração sistêmica de uma nova modalidade de língua (QUADROS; KARNOPP, 2004: 34).” Além disso, os gestos compõem o sinal, cujas unidades constitutivas são: configuração de mão (CM), ponto de articulação (PA), movimento (M), orientação (O) e expressões não-manuais (ENM). Assim, os gestos são parte do que é central à gramática das Línguas de Sinais.

Dando sequência à análise dos dados, observa-se o quadro referente ao quinto mito:

QUADRO 3



Verifica-se, conforme análise das respostas à questão 8, que apenas quatro sujeitos (S1, S3, S8 e S10) têm uma visão diferente daquela mitificada segundo a qual a Língua de Sinais não apresenta uma estrutura gramatical própria, não sendo reconhecida linguisticamente como uma nova modalidade da faculdade de linguagem. Já a questão 15 do questionário avalia a concepção dos sujeitos quanto à dificuldade de aprendizagem da Língua de Sinais em relação às demais. A maioria considera o aprendizado tão complexo quanto o de uma Língua Oral. Portanto, de acordo com tais sujeitos, aprendê-la envolve o mesmo esforço e dedicação. É interessante a contradição de que a maioria dos entrevistados não vê a Língua de Sinais como uma verdadeira língua, mas, ao mesmo tempo, comparam seu aprendizado com o das demais línguas.

As Línguas de Sinais assim como as Línguas Orais, são consideradas Línguas Naturais, enquadrando-se na definição de CHOMSKY (1957), segundo a qual a Língua Natural, em termos formais, é “um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de elementos.” Nas Línguas Orais, esses elementos básicos são as palavras faladas enquanto nas Línguas de Sinais, são os sinais manuais. Em ambos os casos, as frases são representáveis por uma sequência dessas unidades.

Quanto à caracterização de uma língua, diz-se que uma Língua Natural é “uma realização específica da faculdade de linguagem que se dicotomiza num sistema abstrato de regras finitas, as quais permitem a produção de um número ilimitado de frases. Além disso, a utilização efetiva desse sistema com fim social, permite a comunicação entre os seus usuários (QUADROS; KARNOPP, 2004: 30).” Sendo assim, a manifestação da faculdade de linguagem nas Línguas de Sinais dá-se na modalidade visuo-espacial, diferentemente das Línguas Orais, nas quais é utilizada a modalidade oral-auditiva. As Línguas de Sinais, portanto, são um sistema linguístico legítimo e não um problema do surdo ou uma patologia da linguagem.

Há, porém um ponto em comum entre a Língua de Sinais e a Língua Oral, qual seja: a simultaneidade na realização de categorias linguísticas no que diz respeito à “codificação da atitude do falante em relação ao que está sendo descrito, em particular a distinção entre os tipos frasais – declarativo, interrogativo, exclamativo, imperativo (diretivo/ optativo/ exortativo)” (SALLES et al., 2002).

Nas Línguas de Sinais, a simultaneidade se manifesta pelo uso de marcas não-manuais, tais como “expressões fisionômicas e movimentos do pescoço, em sincronia com o movimento manual” (SALLES et al., 2002). Já nas Línguas Orais, a simultaneidade se manifesta pelo uso da “modulação do contorno melódico (entoação e intensidade) da cadeia linguística, em sincronia com os segmentos fônicos.” Dessa forma, tanto os traços suprassegmentais (contorno melódico e a intensidade) nas Línguas Orais quanto às expressões faciais e o ritmo nas Línguas de Sinais devem ser analisados, como parte do que é central à gramática de uma língua e não apenas enquanto fator paralinguístico ou periférico (QUADROS; KARNOPP, 2004).

O sexto mito é o último a ser analisado, e o quadro abaixo mostra os resultados obtidos com as entrevistas:

QUADRO 4



As Línguas de Sinais são processadas no hemisfério cerebral esquerdo da mesma forma que as Línguas Orais. O mito de que as Línguas de Sinais são processadas no hemisfério direito advém de uma suposta dicotomia de que as habilidades verbais se concentram no hemisfério esquerdo, enquanto as habilidades visuo-espaciais estão agrupadas no direito. Entretanto, nas últimas décadas as pesquisas vêm mostrando que “a maioria das habilidades cognitivas pode ser dividida em múltiplas etapas de processamento. Em alguns níveis, a atividade cerebral pode ser lateralizada (ocorrer principalmente em um hemisfério), ao passo que em outros a atividade pode ser bilateral (ocorrer em ambos)” (HICKOK ET AL., [s. d]).

A habilidade para a linguagem oral, por exemplo, tem muitos componentes, como percepção e produção dos sons individuais da fala e das palavras; reconhecimento de adições morfológicas, de construções sintáticas e inflexões melódicas; e capacidade de articulação coerente entre personagens e eventos por muitas sentenças. Todavia, dentre essas habilidades, a produção da linguagem é a mais restrita ao hemisfério esquerdo do cérebro. Isso é um fato que vale não somente para as Línguas Orais, mas também para as Línguas de Sinais. Quanto às habilidades espaciais não-linguísticas, estas também podem se dividir em componentes com diferentes padrões de lateralização. Isso significa, portanto, que o processamento de informação visuo-espacial não está restrito a uma única região do cérebro. Contudo, fica evidente nos depoimentos dos sujeitos da pesquisa que essa é uma informação que muitas pessoas desconhecem, pois metade dos entrevistados não soube responder. Apenas S3, S7 e S8 fizeram colocações apropriadas.

CONCLUSÃO

Com base nos textos teóricos e na análise dos dados que foram colhidos, podemos concluir que a pesquisa Mitos sobre a Língua de Sinais foi uma grande experiência. Além disso, tendo a oportunidade de aprofundar no universo da Língua de Sinais, consequentemente desmistificamos alguns conceitos (ou preconceitos) que são compartilhados por indivíduos de diversas áreas da sociedade.

Com relação ao ambiente em que o estudo foi desenvolvido, uma universidade pública, local onde espera-se que haja uma grande concentração de conhecimentos de todas as áreas, verificamos que mesmo os professores desta instituição, responsáveis pela disseminação deste conhecimento, também compartilham algumas idéias errôneas ou pré-concebidas sobre a Língua de Sinais. Esta visão, ao contrário do que se imagina, não está vinculada somente aos professores dos cursos das áreas de Ciências Exatas, por exemplo, podemos perceber que mesmo os professores do curso de Letras demonstram sua falta de proximidade com esta modalidade comunicativa.

Tendo em vista o fato de que vivemos em uma sociedade onde a inclusão é tida como uma palavra-chave para determinar relações em ambientes tais como escolas, empresas, entre outros, é imprescindível que haja a desmistificação dos mitos relacionados à LIBRAS. Não se pode esperar que em um ambiente responsável por produzir e disseminar conhecimento, como a UFG, haja a circulação de preconceitos, pois estes irão determinar as relações fora do âmbito acadêmico.

Sendo assim, esperamos que essa pesquisa sirva como alerta para que a sociedade como um todo e a comunidade acadêmica em particular, aqui representada especialmente pelos professores, percebam o quanto é importante a busca pelo esclarecimento dos mitos relacionados à Língua de Sinais. Nós, estudantes, futuros professores e pesquisadores, ao nos desfazermos dos mitos apresentados durante a vivência deste estudo, nos sentimos mais conscientes e confiantes na maneira de lidar com a comunidade surda e no nosso papel de futuros elaboradores e disceminadores de idéias. Estudamos para conduzir idéias, não mitos.

REFERÊNCIAS

CHOMSKY, N. Syntactic structures. The Hague: Mounton, 1957.

FERREIRA, A. B. H. Minidicionário Aurélio. 6ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2004.

GOLDFELD, M. A. Criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sóciointeracionista. São Paulo: Plexus, 1997.

HICKOK, G.; BELLUGI, U.; KLIMA, E. S. A língua de sinais no cérebro. Rev. Scientific American Brasil [s. d]; Ed. esp. (4): 50-57.

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo / Rio de Janeiro: Hucitec – Abrasco, 1992.

PERLIN, G. Identidades surdas. In C. Skliar (Org.), A surdez: Um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998.

QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira. Estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed; 2004.

SACKS, O. Vendo vozes: Uma viagem ao mundo dos surdos. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SALLES, H. M. M. L.; FAULSTICH, E.; CARVALHO, O. L.; RAMOS, A. A. L. Ensino de Língua Portuguesa para Surdos. Caminhos para a Prática Pedagógica. Brasília: MEC/SEESP, 2002.

SKLIAR, C. Um olhar sobre o nosso olhar acerca da surdez e das diferenças. In:______ A surdez: Um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998.

WILCOX, S.; WILCOX P. P. Aprender a ver. Tradução: Tarcísio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Editora Arara Azul, 2005.

Neuma CHAVEIRO
E-mail: neumachaveiro@hotmail.com Professora titular do Curso de Licenciatura
em Letras/LIBRAS da Universidade Federal
de Goiás
Claudney Maria de Oliveira e SILVA
E-mail: claudney@terra.com.br
Professora titular do Curso de Licenciatura
em Letras/LIBRAS da Universidade Federal
de Goiás
Ana Paula Massi de Oliveira e SILVA
E-mail: anapaulamassi1981@hotmail.com Aluna do Curso Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Goiás

Flávia Pereira da SILVA
E-mail: flaviapereira04@hotmail.com
Aluna do Curso Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Goiás
Maxwell Souza da Silva MATOS
E-mail:maxwellmathsonn@gmail.com
Aluno do Curso Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Goiás
Polyana Rodrigues BORGES

E-mail: thermuts@hotmail.com
Aluna do Curso Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Goiás

 
   


Neuma Chaveiro Claudney Maria de
Oliveira e Silva



Ana Paula Massi
de Oliveira e Silva



Flávia Pereira da Silva


Polyana Rodrigues Borges


Maxwell Souza da Silva MATOS