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CRIANÇAS SURDAS PARTICIPAM DO LANÇAMENTO - 23/03/2007

No dia 19 de março foi lançado no Salão Cristal do MEC, em Brasília, com a participação de autoridades representando a SEESP- SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL , o FNDE  e o  MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, o primeiro livro didático digital Libras/Português.


O material, que foi totalmente desenvolvido pela equipe da Edtora Arara Azul por solicitação da SEESP durante mais de dois anos, pode ser considerado um marco na história da educação dos surdos, pois dará aos alunos surdos ou com deficiência auditiva uma maior independência em seus estudos já que trata-se de um CD-ROM totalmente interativo e que reproduz em Libras a totalidade do livro em papel que é distribuído também para os alunos ouvintes.


O sucesso do material pôde ser comprovado com o grande interesse despertado nas crianças surdas presentes, convidadas pela SEESP (representando uma escola de Brasília). Confiram as fotos no portal do MEC:


http://portal.mec.gov.br/seesp/index.php?option=content&task=view&id=6638&FlagNoticias=1&Itemid=6788


Em seguida a íntegra da fala da gerente editorial da Editora Arara Azul na ocasião, Dra. Clélia Regina Ramos, coordenadora do projeto:


 

Autoridades presentes, prezados senhores e senhoras e queridos jovens estudantes!

Bom dia a todos!

 

 

É com imensa alegria, que aqui estou, como representante de uma equipe composta por muitos profissionais, que trabalharam por mais de dois anos nesse projeto-piloto da SEESP/MEC, em parceria com a EDITORA ARARA AZUL e a EDITORA SCIPIONE: LIVRO DIDÁTICO DIGITAL BILÍNGÜE. Presente nesta platéia está uma desses profissionais, que eu gostaria de pedir que se levantasse: HELOÍSE GRIPP DINIZ, supervisora de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, também, uma das tradutoras do Projeto.

 

Como vocês podem ver (o material ficou passando), trata-se de um produto aparentemente simples: textos em português escrito que podem ser traduzidos para a Libras através de um clique. Mas, para chegarmos até esse produto o caminho percorrido foi longo e só possível em função de alguns fatores que se uniram de maneira inédita.

 

Devo dizer, inicialmente, que não existe no mundo trabalho similar ao nosso, ou seja: um livro didático digital bilíngüe: língua escrita/língua de sinais e que seja distribuído em larga escala pelo poder público para estudantes surdos ou com deficiência auditiva de todo o país. E mais, um livro digital acompanhado do livro em papel. O mesmo livro alfabetizando, em igualdade de condições, crianças surdas ou com deficiência auditiva e crianças ouvintes, em uma proposta de Educação Inclusiva.

 

Aproveito a oportunidade para contar um pouco sobre o caminho percorrido por mim, inicialmente, e em seguida por um incontável número de profissionais, instituições, programas de apoio e pessoas que foram aparecendo em nossas vidas, simplesmente querendo colaborar com esse sonhado projeto de inclusão dos surdos nas escolas .

 

Inicialmente, lembro com carinho da professora lingüista LUCINDA FERREIRA BRITO, minha orientadora no Curso de Mestrado em Semiologia da Faculdade de Letras da UFRJ, onde propusemos e avaliamos a metodologia, que posso considerar a filosofia desse trabalho, qual seja a “Tradução Cultural”, que pode ser resumida da seguinte forma:

·        Sabemos, desde a década de 1960, através do trabalho pioneiro de William Stokoe, que as Línguas de Sinais espalhadas pelo mundo são línguas com todas as características e aplicabilidades das línguas orais.

·        E conhecendo, a cada dia, um pouco mais sobre a história dessas línguas, sobre a história das comunidades surdas e suas lutas por direitos de cidadania: comunicação, educação, saúde, trabalho, lazer, etc

·        Então, sabemos que as comunidades surdas utilizam línguas de sinais na sua comunicação e compartilham de uma cultura própria, assim sendo, podemos traduzir qualquer texto em qualquer língua para uma língua de sinais.



 

Nada de novo até ai...os intérpretes já fazem isso há muito tempo! Mas...com a tecnologia da gravação em vídeo, podemos fazer essa interpretação e registrarmos a mesma. Podemos fazer esse trabalho com tempo, reflexão, pesquisa, ensaios, correções... Em nossa primeira hipótese de trabalho, no ano de 1992, confirmamos que podemos traduzir sim uma língua de escrita para uma língua de sinais, o que seria uma proto-escrita, gravada, registrada.

 

Mais uma idéia simples, não é? Mas o diferencial veio em seguida: se os surdos compartilham não só uma língua, mas também uma cultura, portanto qualquer trabalho de tradução terá que ser cultural, ou seja, de trocas culturais. E, desde então, tem sido essa a nossa luta, a de realizar traduções culturais, o que significa enquanto metodologia que trabalhamos sempre com pelo menos uma dupla de profissionais: um surdo bilíngüe Libras/Português e um ouvinte que domine a Libras.

 

Da teoria para a prática, a coisa já não é tão simples... É preciso tempo, é preciso muito investimento, é preciso capacitar profissionais de áreas diferentes para pensar uma única direção.

 

Com a ajuda do CNPq, inicialmente, e depois em um segundo momento, o da execução do primeiro trabalho de tradução cultural que realizamos, “Alice no País das Maravilhas”, com o apoio da FAPERJ e em seguida da IBM que patrocinou, através da Lei Rouanet, 30 mil mídias de dez títulos da COLEÇÃO “Clássicos da Literatura em Libras/Português” que foram distribuídas pela SEESP por todo o Brasil, pudemos avançar na prática as premissas teóricas. Sem esses apoios realmente nada teria acontecido.

 

Mas, não posso deixar de destacar a ajuda da FENEIS, que a mim, particularmente, deu a formação política necessária ao projeto, trabalhando como assessora de imprensa lá por 5 anos. Deu-me a clareza de entender quem são os surdos e o que eles querem.   E me ensinou a ouvi-los! E eles falam que querem ter acesso à educação de qualidade em sua língua de sinais, querem participar efetivamente da educação das crianças surdas, querem ter acesso ao mercado de trabalho.

 

A Editora ARARA AZUL Ltda, a qual represento com Gerente Editorial e Coordenadora de Projetos, em parceria com a EDITORA SCIPIONE , que cedeu seus direitos sobre o livro em papel para essa edição bilíngüe, e, evidentemente o MEC, que através do FNDE está distribuindo mais de 20 mil exemplares do material, entrega hoje para os surdos brasileiros esta pequena contribuição para o avanço na conquista de seus direitos constitucionais e desejos pessoais e sociais.

 

É um começo, apenas. Cabe agora aos surdos e seus professores contribuírem com esse processo, utilizando o material, propondo avanços e solicitando ao MEC mais e mais livros digitais bilíngües: Português/Libras .

Não podemos esquecer da Legislação específica para os Direitos Autorais, que a exemplo dos livros em Braile para os cegos, poderá permitir a tradução para a Libras de todo e qualquer texto que desejarmos. Temos que lutar para que isso aconteça o mais rápido possível!

 

Esperamos que o MEC possa atender a esses pedidos com a urgência necessária. Estamos preparados para o trabalho!